Com Soledad Castro
"Quando na manhã você recebe a lista de trabalho, a vontade é de dar com a cabeça na parede"
As camareiras de Mallorca contam como são as suas condições de trabalho

-Como é o trabalho de uma camareira em um lugar com Playa de Palma?
-O trabalho é angustiante. Atualmente fazemos 24 quartos por dia. Antes, fazíamos 21 quartos. Mas, há dois anos aumentaram para 24.
Além disso, como o hotel é um complexo, temos que ir para vários andares de diferentes edifícios. É uma loucura. Não é tanto o trabalho em si, mas imagine não ter todos os quartos no mesmo lugar. Cada uma de nós tem de sair, percorrer um longo caminho por 5 a 6 minutos, para chegar até o outro edifício, se organizar e começar a trabalhar.
Até porque trabalhamos muitas vezes sem toalhas, sem lençóis, porque os hotéis não estão preparados para uma intensa movimentação e acabam não tendo roupa de cama e banho suficientes.
Então, a camareira tem que fazer esse quarto, mas também tem que ir pra outro e depois não pode terminar, e aí volta para colocar as toalhas ou os lençóis que faltavam, e com isso vão atrasando o serviço. E se você ligar para a lavanderia, podem deixar você 10 minutos pendurada no telefone.
-Isto deve provocar muita tensão e frustração...
-Ao longo do dia vamos sentindo muito estresse e chega um momento em que quando na manhã você recebe a lista de trabalho, a vontade é de dar com a cabeça na parede.
Aí contamos as saídas, as trocas de lençóis e onde temos que ir... E há vezes em que perdemos a paciência e dizemos: “Mas você é tonta? Você não pensa não? Você sabe bem o que está pedindo? Você tem ideia do que é colocar 90 lençóis?”
É que dá um curto-circuito. Gera muita frustração não poder fazer bem o nosso trabalho. E isso provoca muita tensão.
Chega um momento em que a vontade é de enforcar as companheiras, os chefes e quem cruzar o seu caminho. Porque a gente percebe que, por melhor que queiramos fazer o nosso trabalho, não teremos tempo suficiente e nem nos permitirão.
-Sempre foi assim?
-Sempre tivemos muito trabalho, mas com a crise esta situação se agudizou.
Quando comecei, há 19 anos, tínhamos muitíssimo trabalho, mas éramos como uma grande família e o trabalho dava para ser feito, além de nos ajudarmos entre todas as companheiras.
Agora, cresceu o número de camareiras eventuais, que fazem tudo o que lhes disserem. E isto está prejudicando o trabalho das camareiras fixas descontínuas, porque se supõe que se elas podem, nós também. Então, quando nos queixamos, dizem que a porta está aberta para quem não estiver satisfeita, e que há uma fila enorme de gente querendo entrar.
-Imagino que as camareiras eventuais, por medo, aceitam trabalhar de um modo mais intenso.
-As eventuais fazem tudo que lhes for determinado, e inclusive são capazes de vir até três semanas direto, sem um dia de folga sequer. Não recebem nenhum dia para descansar, e também não pedem.
As delegadas sindicais dizem para as eventuais que elas têm direitos, mas que precisam pedir por eles, e que nós as acompanharemos em tudo o que for preciso.
Quando lhes contamos isto, elas nos dizem que podemos pedir pelos seus direitos, mas quando percebem que precisam ir junto conosco, já não querem mais, que está tudo bem, e até nos deixam com as calças na mão, porque dizem que inventamos tudo, que não é verdade e que elas jamais pediram isso.
-Outra questão que deve influenciar também na forma como estão deteriorando as condições de trabalho de vocês deve ser a própria evolução que se deu ao destino turístico
-Ah é. Antes o cliente ficava hospedado um mínimo de 7 dias, podendo se prolongar por 14 a 15 dias, mas agora ficam só 3 ou 4 dias, e isto quer dizer que são feitas até três saídas por semana em cada quarto.
Imagine você, que todos os dias eu tenha umas 10 saídas de quatro camas, deste tipo de gente.
-Como assim?
-É que, além dos quartos, você tem que fazer os corredores, limpar os vômitos, recolher os restos de garrafas quebradas, são mil coisas, só que de fato nem deveriam ser da nossa alçada.
-É que estão apostando em trazer clientes de qualquer jeito e isso tem também consequências para vocês.
-O que estão trazendo para ocuparem os quartos e ganharem dinheiro é o que nenhum outro país quer.
Os clientes chegam ao hotel às 2h, às 3h, às 4 da manhã aos gritos, saltando pelas varandas, fazendo bagunça, ficando nus, fazem sexo no meio da rua... Mas o que está acontecendo? E a polícia parece que está olhando para o outro lado. As coisas pioraram demais.
Trazem qualquer tipo de gente. Você entra em um quarto e não sabe o que você pode vir a encontrar, porque é pisar no quarto e arriscar a pisar nos vidros de uma garrafa quebrada e jogada ao chão, ou qualquer outra imundície dessas.
-É um risco para a saúde também...
-Eu estou sem trabalhar já faz um mês. Ao entrar em um quarto cheio de malas e com tudo jogado ao chão, escorreguei com a areia que estava no chão e bati com os joelhos no trilho da janela.
Estou com um enorme hematoma e passei os primeiros dez dias imobilizada na cama, e agora estou com acompanhamento médico.
-Quais as garantias que vocês têm num casos destes ou mesmo se forem problemas de saúde mais graves?
-Se você for ao plano de saúde e eles declararem que você está “apta com restrições”, vão nos dizer que temos que buscar outro trabalho, porque este já não é pra nós.
Ou seja, pedem para você renunciar ao trabalho e buscar outra coisa para ganhar a vida. Não demitem você, mas ao mesmo tempo estão dizendo que se você já não pode desempenhar este trabalho, que busque outro.
E agora, me explique você, com uma crise como esta, onde uma pessoa de cinquenta e tantos anos vai encontrar trabalho se uma de trinta já não encontra?
Fotos: Ernest Cañada
Tradução de Luciana Gaffrée