13
Junho
2016
Com Jair Krischke
Fez-se justiça
“A condenação de Cordeiro é a vitória do bem sobre o mal”
En Montevideo, Amalia Antúnez
Jair Krischke | Foto: Gerardo Iglesias
Presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos de Porto Alegre, Jair Krischke, o “cão de caça”, como é conhecido devido à sua capacida de para descobrir criminosos de lesa humanidade, foi um dos artífices fundamentais para a condenação de 25 anos de prisão ao militar uruguaio Manuel CorderoPiacentini, na Argentina, por delitos cometidos durante a Operação Condor.
Em diálogo com A Rel, Jair se mostrou bastante satisfeito ao saber da sentença emitida pela justiça argentina, sendo para ele “um exemplo para o Brasil, não só porque abre um precedente jurídico como principalmente coloca a situação do Brasil em evidência”.
“O Brasil é o único país onde os militares que participaram das operações repressivas durante as ditaduras do Cone Sul gozam de total e absoluta impunidade”, destacou o ativista.
Cordero fugiu do Uruguai para o Brasil em julho de 2004, buscando evitar comparecer perante o juiz Pedro Hackembruch em uma ação de “desacato com ofensa” denunciada pelo juiz José Balcaldi, que aceitou a denúncia contra o militar por “apologia ao crime”, devido às suas declarações públicas reivindicando a prática da tortura.
“Naquele momento, o jornalista uruguaio Roger Rodríguez alertou-me sobre a possibilidade de Cordero estar escondido na fronteira Rivera-Livramento”, lembrou Jair.
“Imediatamente acionei meus contatos e, de fato, em fevereiro de 2005, descobrimos que o coronel da reserva não só estava vivendo em Livramento como também cruzava todos os meses a fronteira para receber do lado uruguaio a sua suculenta aposentadoria”.
Em 25 de fevereiro, Krischke voou até Buenos Aires, onde se desenrolava o processo sobre os detidos desaparecidos no centro de repressão Automotores Orletti, para declarar que Cordero, um dos implicados, estava preso no Brasil.
A Automotores Orletti foi a base principal das operações das forças uruguaias na Argentina durante a Operação Condor, coordenada pelas ditaduras dos três países.
“Na Argentina, solicitei ao juiz que pedisse a extradição de Cordero – conta – e finalmente, graças ao trabalho de muitas pessoas, anos depois, conseguimos extraditá-lo”.
Só que a coisa já tinha começado mal. Em 2009, uma vez solicitada a extradição pela promotoria argentina, o relator do Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil, Marco Aurélio de Mello, não aceitou o pedido por considerar que os desaparecidos certamente estariam mortos e, sendo assim, tratava-se de um crime de homicídio já prescrito.
Somente um dos membros do STF, César Peluso, solicitou analisar mais a fundo o caso, adiando a decisão.
“Além de ser um absurdo, o relatório de Marco Aurélio era falso, porque só mencionava dois desaparecimentos, e esquecia um dos casos emblemáticos que contavam com a participação de Cordero, a apropriação do filho de Sara Méndez, Simón Riquelo, que recuperou a sua identidade 22 anos depois, além de vários outros casos de sequestros, torturas, estupros e assassinatos”.
Nesse cenário, Krischke viajou a Montevidéu para entrar em contato com as organizações de direitos humanos e com a promotoria uruguaia, com a finalidade de pressionar o STF para que mudasse de parecer e votasse a favor da extradição.
“Em Montevidéu, entro em contato com o escritório regional da UITA – Você conhece? – brinca Jair – e junto com Gerardo (Iglesias) e sua equipe iniciamos uma campanha internacional pedindo a sua extradição.
A campanha constava de uma mensagem enviada por e-mail para os endereços oficiais de correio eletrônico dos ministros do Supremo Tribunal Federal do Brasil.
“Foi tamanho o sucesso desta campanha que não só conseguimos o fato histórico de mudar o resultado da votação como também que Cordero fosse finalmente extraditado para a Argentina. Além disso, conseguimos abrir um precedente que foi incorporado aos tópicos jurídicos do Brasil”, alegra-se Jair.
E acrescenta rindo: “também é por causa desta campanha que os correios eletrônicos dos membros do Supremo já não estão mais acessíveis”
No dia 27 de maio, Manuel Cordero Piacientini foi condenado em Buenos Aires a 25 anos de prisão, junto com outros repressores argentinos, por causa da Operação Condor.
Diversas organizações de direitos humanos comemoraram ter sido feita a justiça, finalmente.
“O Brasil é o único país onde os militares que participaram das operações repressivas durante as ditaduras do Cone Sul gozam de total e absoluta impunidade”, destacou o ativista.
Cordero fugiu do Uruguai para o Brasil em julho de 2004, buscando evitar comparecer perante o juiz Pedro Hackembruch em uma ação de “desacato com ofensa” denunciada pelo juiz José Balcaldi, que aceitou a denúncia contra o militar por “apologia ao crime”, devido às suas declarações públicas reivindicando a prática da tortura.
“Naquele momento, o jornalista uruguaio Roger Rodríguez alertou-me sobre a possibilidade de Cordero estar escondido na fronteira Rivera-Livramento”, lembrou Jair.
“Imediatamente acionei meus contatos e, de fato, em fevereiro de 2005, descobrimos que o coronel da reserva não só estava vivendo em Livramento como também cruzava todos os meses a fronteira para receber do lado uruguaio a sua suculenta aposentadoria”.
Em 25 de fevereiro, Krischke voou até Buenos Aires, onde se desenrolava o processo sobre os detidos desaparecidos no centro de repressão Automotores Orletti, para declarar que Cordero, um dos implicados, estava preso no Brasil.
A Automotores Orletti foi a base principal das operações das forças uruguaias na Argentina durante a Operação Condor, coordenada pelas ditaduras dos três países.
“Na Argentina, solicitei ao juiz que pedisse a extradição de Cordero – conta – e finalmente, graças ao trabalho de muitas pessoas, anos depois, conseguimos extraditá-lo”.
Só que a coisa já tinha começado mal. Em 2009, uma vez solicitada a extradição pela promotoria argentina, o relator do Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil, Marco Aurélio de Mello, não aceitou o pedido por considerar que os desaparecidos certamente estariam mortos e, sendo assim, tratava-se de um crime de homicídio já prescrito.
Somente um dos membros do STF, César Peluso, solicitou analisar mais a fundo o caso, adiando a decisão.
“Além de ser um absurdo, o relatório de Marco Aurélio era falso, porque só mencionava dois desaparecimentos, e esquecia um dos casos emblemáticos que contavam com a participação de Cordero, a apropriação do filho de Sara Méndez, Simón Riquelo, que recuperou a sua identidade 22 anos depois, além de vários outros casos de sequestros, torturas, estupros e assassinatos”.
Nesse cenário, Krischke viajou a Montevidéu para entrar em contato com as organizações de direitos humanos e com a promotoria uruguaia, com a finalidade de pressionar o STF para que mudasse de parecer e votasse a favor da extradição.
“Em Montevidéu, entro em contato com o escritório regional da UITA – Você conhece? – brinca Jair – e junto com Gerardo (Iglesias) e sua equipe iniciamos uma campanha internacional pedindo a sua extradição.
A campanha constava de uma mensagem enviada por e-mail para os endereços oficiais de correio eletrônico dos ministros do Supremo Tribunal Federal do Brasil.
“Foi tamanho o sucesso desta campanha que não só conseguimos o fato histórico de mudar o resultado da votação como também que Cordero fosse finalmente extraditado para a Argentina. Além disso, conseguimos abrir um precedente que foi incorporado aos tópicos jurídicos do Brasil”, alegra-se Jair.
E acrescenta rindo: “também é por causa desta campanha que os correios eletrônicos dos membros do Supremo já não estão mais acessíveis”
No dia 27 de maio, Manuel Cordero Piacientini foi condenado em Buenos Aires a 25 anos de prisão, junto com outros repressores argentinos, por causa da Operação Condor.
Diversas organizações de direitos humanos comemoraram ter sido feita a justiça, finalmente.
Cronologia de uma detenção
Por Jair Krischke
Depois de fugir de seu país, em 2004, Cordero permaneceu como fugitivo e sem paradeiro conhecido até o dia 22 de fevereiro de 2007, uma quinta-feira.
Às 12h40 deste dia, apresenta-se no consulado do Uruguai em Santana do Livramento, pedindo que lhe entregassem um atestado de vida para que a sua filha e procuradora pudesse receber a aposentadoria que lhe era destinada em Montevidéu.
No mesmo dia, às 14h30, a vice-ministra das Relações Exteriores do Uruguai, Belela Herrera, informou-me por telefone da presença de Cordero no consulado e me pede colaboração.
Às 15h falo por telefone com o cônsul do Uruguai em Santana do Livramento, o senhor Ignácio Capandeguy, informando-me que o advogado de Cordero, o Dr. Julio Martins Favero, tinha acabado de passar pelo consulado para pegar o atestado de vida de seu cliente. Disse também que informou ao advogado que continuavam esperando orientação do Ministério das Relações Exteriores em Montevidéu, e que, por favor, voltasse no dia seguinte.
Às 15h30 tento me comunicar telefonicamente com a Interpol de Brasília e não consigo.
No dia seguinte, sexta 23 de fevereiro, ligo para o Dr. Augustino Veit, que trabalhou comigo durante anos no MJDH, e que também integrava a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados do Brasil.
De manhã, falo com o oficial da Polícia Federal Glorivan Bernardes de Oliveira, coordenador da Interpol Brasil, contando-lhe sobre a situação de Cordero. Nesse momento, fico sabendo que o ministro relator já tinha assinado a ordem de prisão e extradição.
De tarde, volto a falar com o cônsul uruguaio em Livramento, que me informa sobre a insistência do advogado de Cordero para obter o famoso atestado de vida, dizendo que seu cliente não recebia a aposentadoria desde janeiro. O cônsul pediu a ele que voltasse na segunda-feira.
No domingo, 25 de fevereiro, por fax dirigido à Polícia Federal de Santana do Livramento, o advogado pede refúgio para Cordero. Informam ao advogado, que a Lei nº9.474/97 exige que o solicitante deve apresentar seu pedido pessoalmente, na delegacia.
Na segunda, 26 de fevereiro, o advogado volta ao consulado e recebe como resposta uma nova desculpa. O cônsul me diz ser evidente que sabem que o novo governo não quer lhes dar o tal documento.
Nesse mesmo dia, de tarde, Cordero se apresenta na delegacia de Santana do Livramento para dar início ao trâmite de pedido de refúgio. Nesse mesmo momento, é detido.
Às 18h30 telefono para Belela Herrera para dar-lhe a boa notícia, mas não consigo falar com ela. Imediatamente, ligo para o cônsul uruguaio e para os meus amigos do Ministério da Educação e Cultura do Uruguai para lhes pedir que, por favor, informem Belela da detenção de Cordero.
Às 20h30 Belela me liga e me agradece.
No dia 27 de fevereiro, terça-feira, Cordero segue escoltado para a prisão da Polícia Federal de Porto Alegre, onde aguardaria pela sua extradição à Argentina.
O resto já é história conhecida.
Por Jair Krischke
Depois de fugir de seu país, em 2004, Cordero permaneceu como fugitivo e sem paradeiro conhecido até o dia 22 de fevereiro de 2007, uma quinta-feira.
Às 12h40 deste dia, apresenta-se no consulado do Uruguai em Santana do Livramento, pedindo que lhe entregassem um atestado de vida para que a sua filha e procuradora pudesse receber a aposentadoria que lhe era destinada em Montevidéu.
No mesmo dia, às 14h30, a vice-ministra das Relações Exteriores do Uruguai, Belela Herrera, informou-me por telefone da presença de Cordero no consulado e me pede colaboração.
Às 15h falo por telefone com o cônsul do Uruguai em Santana do Livramento, o senhor Ignácio Capandeguy, informando-me que o advogado de Cordero, o Dr. Julio Martins Favero, tinha acabado de passar pelo consulado para pegar o atestado de vida de seu cliente. Disse também que informou ao advogado que continuavam esperando orientação do Ministério das Relações Exteriores em Montevidéu, e que, por favor, voltasse no dia seguinte.
Às 15h30 tento me comunicar telefonicamente com a Interpol de Brasília e não consigo.
No dia seguinte, sexta 23 de fevereiro, ligo para o Dr. Augustino Veit, que trabalhou comigo durante anos no MJDH, e que também integrava a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados do Brasil.
De manhã, falo com o oficial da Polícia Federal Glorivan Bernardes de Oliveira, coordenador da Interpol Brasil, contando-lhe sobre a situação de Cordero. Nesse momento, fico sabendo que o ministro relator já tinha assinado a ordem de prisão e extradição.
De tarde, volto a falar com o cônsul uruguaio em Livramento, que me informa sobre a insistência do advogado de Cordero para obter o famoso atestado de vida, dizendo que seu cliente não recebia a aposentadoria desde janeiro. O cônsul pediu a ele que voltasse na segunda-feira.
No domingo, 25 de fevereiro, por fax dirigido à Polícia Federal de Santana do Livramento, o advogado pede refúgio para Cordero. Informam ao advogado, que a Lei nº9.474/97 exige que o solicitante deve apresentar seu pedido pessoalmente, na delegacia.
Na segunda, 26 de fevereiro, o advogado volta ao consulado e recebe como resposta uma nova desculpa. O cônsul me diz ser evidente que sabem que o novo governo não quer lhes dar o tal documento.
Nesse mesmo dia, de tarde, Cordero se apresenta na delegacia de Santana do Livramento para dar início ao trâmite de pedido de refúgio. Nesse mesmo momento, é detido.
Às 18h30 telefono para Belela Herrera para dar-lhe a boa notícia, mas não consigo falar com ela. Imediatamente, ligo para o cônsul uruguaio e para os meus amigos do Ministério da Educação e Cultura do Uruguai para lhes pedir que, por favor, informem Belela da detenção de Cordero.
Às 20h30 Belela me liga e me agradece.
No dia 27 de fevereiro, terça-feira, Cordero segue escoltado para a prisão da Polícia Federal de Porto Alegre, onde aguardaria pela sua extradição à Argentina.
O resto já é história conhecida.

Foto: laretaguardia.com.ar


